Para a crise da política institucional a saída é a luta nas ruas!

O espetáculo do impeachment acabou. O clima que paira no ar não podia ser diferente: o desfecho estava dado há tempos e era mais do que previsível. Como um filme que já se sabe o final, todos assistem sem entusiasmo. A resposta que muitos querem dar está travada na garganta e as mãos estão atadas por uma direção que mais uma vez coloca nas eleições o único caminho possível. Paralelo a esta sensação de incapacidade abre-se um caminho supostamente mais estável para o novo-velho governo desferir os ataques que já estava planejando. A apatia reinará, ou conseguiremos abrir nossos caminhos à esquerda?

A crise econômica iniciada em 2008 que está assolando o mundo não tinha como deixar o Brasil de fora. O Partido dos Trabalhadores vende a ilusão de que é possível um governo para todos, com as classes trabalhadoras se beneficiando de alguns programas sociais enquanto os bancos e patrões continuavam tendo altos lucros. No entanto, precisamos entender que, embora boa parte da base do PT seja de movimentos sociais/sindicais, o PT representava os interesses da burguesia. Foi esse partido que colocou Katia Abreu no Ministério da Agricultura (famosa defensora dos latifundiários), que colocou Joaquim Levy no Ministério da Fazenda (sinalizando uma política neoliberal para a economia), que nunca se propôs a legalizar o aborto, que vetou o kit anti-homofobia, que fez o programa “mãe cegonha” (que foca na saúde da mulher só no seu período de gravidez, indo na contramão da atenção à saúde integral da mulher reivindicada pelas feministas), que investiu na educação superior privada (com Prouni e Reuni), etc.

Embora nunca seja possível governar para todos, essa impossibilidade fica ainda mais evidente em um cenário de crise do capitalismo. Ao menor sinal de que medidas sociais representem perdas econômicas aos setores capitalistas, elas são rapidamente cortadas. É nessa conjuntura econômica que no final do ano passado programas sociais que eram tão defendidos pelo governo na área da saúde e educação sofrem cortes e a reforma da previdência avança a passos largos. Este cenário de crise evidencia ainda mais como os interesses dos trabalhadores são distintos daqueles dos patrões, ou seja, torna mais evidente a luta de classes no cotidiano. Os interesses dos capitalistas e dos trabalhadores são inconciliáveis e na disputa sobre quem sairá perdendo os trabalhadores tem levado duros golpes, mas não sem resistência. As consequências da crise econômica acirram os ânimos e os trabalhadores e a sua juventude tomam as ruas, ocupam fábricas e escolas, fazem greves e buscam recuperar, na marra, aquilo que lhes pertence. Para conter as revoltas, governos usam e abusam da repressão e no Brasil isto foi nítido nos protestos de junho de 2013 e na aprovação da Lei anti-terrorismo. A militarização das favelas, das escolas e a repressão nos locais de trabalho são as marcas de um governo que não hesita em governar para os ricos.

Embora hajam diferenças entre aqueles que estão fazendo o impeachment e o governo do PT, há também muita continuidade, visto que ambos defendem projetos da burguesia. É importante lembrar que até pouco tempo atrás vários que estão agora chamando o impeachment estavam na base do governo Dilma, e que o PT vai sair com o PMDB e outros partidos supostamente adversários em várias eleições de prefeituras. A verdade é que o PT cavou seu próprio túmulo com seu projeto de consciliação de classes. Aliou-se a Temer, Cunha e Katia Abreu, fez política para a burguesia e agora tenta se colocar como adversário dos setores reacionários.

O PT está, portanto, ultrapassado. Ultrapassado para os trabalhadores que já não o enxergam como governando para eles e ultrapassado para uma burguesia que agora pode colocar um governo sem mediações. A figura de Michel Temer na presidência busca recuperar uma estabilidade que o governo Dilma já não conseguia impor. E mesmo frente ao processo de impeachment, as direções do PT nem mesmo buscam mobilizar a população. Em frangalhos, o partido da estrela vermelha já não consegue mobilizar amplas massas para as ruas em sua defesa, pois seu governo é indefensável. A saída encontrada foi a caracterização do impeachment como um golpe, para que assim possam dar o tom das eleições de 2018. Na prática, o mesmo plano de governo seria aplicado. No discurso, poderiam ressurgir como alternativa, caracterizando os retrocessos sofridos como sendo frutos do governo do PMDB.

Não são poucos os trabalhadores que perderam as ilusões no PT e em qualquer projeto político de conciliação de classes, mas também não são poucos os trabalhadores que não reconhecem o governo Temer e que sabem que duros ataques ainda estão por vir. A vontade de lutar não falta. A vontade de defender nossas vidas, nossos empregos e salários está latente, pois é necessária. Frente a isso é preciso ficarmos atentos. Milhares de pessoas não sairão às ruas para defender o governo petista, tampouco enxergam melhora nas mãos de Temer. A ânsia pela autodefesa precisa encontrar vazão e organização em um programa de lutas à esquerda e revolucionário, antes que sucumba a projetos políticos de extrema direita, o que é especialmente perigoso em momentos de crise.

Os ataques que estamos recebendo e que se intensificarão estão vindo de forma difusa. Não se expressam apenas no arrocho salarial localizado, onde cada categoria de trabalhadores precisava, e muitas vezes conseguia, dar respostas com uma mobilização local. Os ataques à nossa classe estão vindo, por exemplo, por meio de reformas trabalhistas, o que nos exige uma mobilização ampla, agregando inclusive os setores que não conseguem se sindicalizar.

Há um desafio imenso a nossa frente e a esquerda combativa precisa conseguir se desvencilhar completamente do projeto político de conciliação de classes, romper com os resquícios burocráticos e se colocar com força na militância de base, articulando-se em todas as frentes que forem possíveis para unir esforços em ações unitárias. A construção de uma greve geral é importante, mas para conseguir chegar até ela e para que não se encerre em si mesma, há muito o que fazer.

A defesa real de nossas condições de vida e trabalho é urgente. A saída para esta crise não está em um novo gestor do Estado Capitalista, mas no retorno da perspectiva revolucionária. A crença no projeto de conciliação de classes já custou muito caro para a vida da classe trabalhadora e precisa ser retirada do horizonte. A saída não está nas eleições da democracia burguesa e nem em nenhum novo partido que esteja rascunhando a mesma trajetória do PT. A saída está na independência de classe, na defesa intransigente de nossas condições de vida e trabalho, em nossas mobilizações pela base e na certeza da necessidade da revolução socialista. Temer não terá sossego, assim como nenhum outro governo teve! Nossa luta segue avançando!

Não mais patrões e não mais ilusões!
Não aos ataques dos governos!

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